Pesados os prós e os contras, feitas as contas, ao longo de 40 anos, FERNANDO GOMES é o genuíno e legítimo representante do Fado que houve e ainda há na mui nobre e invicta cidade
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A vida, Amigo, como é comum se propalar, é assim. Como bem sabes, quer isto dizer, em súmula eloquente, que, independentemente de todos os prazeres e dores existenciais, inexoravelmente temos de aceitar, quanto possível corajosa e tranquilamente, o regresso ao nada donde viemos. Como outras tantas coisas que tivemos de aprender sem que alguém nos ensinasse - considerarás que nos ensinam algo que valha a pena aprender? - temos também de aprender, em descoberta íntima, a morrer com dignidade, para que a memória, enquanto durar, registe com saudade a nossa presença espiritual.

Já nos conhecemos há pelo menos 40 anos. Somos daqui, não admira. Era o que faltava que dois genuínos tripeiros, contemporâneos de meio-século, não se conhecessem, e logo nós, dois dos generosos "loucos" dos anos 60, aquela luminosa época em que só víamos bem às escuras...

Chegados aqui, em face um do outro, por motivos que só os astros dominam, a nossa cultivada amizade ao longo dos anos perdurou, sem contrariedades, sem obstáculos. Passamos imunes e sem mácula pelo trepidante túnel das emoções ao rubro. Sequer de encontro ao mesmo amor proíbido nos esbarramos...

Hoje, na santa paz da consciência em pleno repouso, podemos com todo o prazer sentarmo-nos à mesma mesa, erguer com convicção o nosso copo e brindarmos aprazivelmente aos futuros dias da nossa vida, sejam eles como forem, curtos ou longos.

- Anda lá, Nando, levanta-te, coloca-te ali ao centro das "banzas" e emociona-me, ajuda-me a levitar, proporciona-me ensejo para que a minha alma voe e por momentos se liberte deste meu corpo tão farto de estar preso ao chão...

António Torre da Guia

NOITE DE INVERNO

Noite de Inverno, olha o vento,
Passa na rua, que importa,
É um eterno mendigo...
Anda a pedir, num lamento,
Que venha a abrir a porta
Aos que não têm abrigo...

Pobres árvores... Despidas,
Troncos virados aos céus
No seu viver tão sombrio...
São anjos de mãos erguidas
Como que a pedir a Deus
Os pobres que têm frio...

Tristes beirais... Depenados,
Tão vermelhos, que parecem
Os olhos de uma viúva...
Andam a chorar, coitados,
Por aqueles que adormecem
Num degrau ao som da chuva...

Dessa voz da natureza
São os homens que se alheiam
Num egoísmo feroz...
Que vergonha e que tristeza
Se as coisas que nos rodeiam
Um dia tivessem voz!

Canta Fernando Gomes
Acompanham Eduardo Jorge - Alexandre Santos
São autores Fernando Farinha - J.M.dos Anjos


INCÓLUME